Baixa visão e vulnerabilidade social garantem direito ao BPC à doméstica
A Justiça Federal do Paraná condenou o Instituto Nacional do Seguro Social a conceder o Benefício de Prestação Continuada (BPC) a uma trabalhadora doméstica do município de Arapongas, reconhecendo impedimentos de longo prazo associados à sua condição de saúde e vulnerabilidade social.
A decisão foi proferida pelo juiz federal Marcio Augusto Nascimento, da 8ª Vara Federal de Londrina.
Entenda o caso
A autora, mulher de 46 anos, negra, foi diagnosticada com glaucoma, condição que resultou em baixa visão e limitações permanentes.
Apesar de o laudo pericial não ter reconhecido incapacidade total para o trabalho, o magistrado adotou uma análise ampliada do caso, considerando fatores sociais, econômicos e estruturais que impactam diretamente sua inserção no mercado de trabalho.
Perspectiva de gênero e raça na decisão
Na fundamentação, o juiz aplicou protocolos do Conselho Nacional de Justiça para julgamento com perspectiva de gênero e raça.
A decisão reconheceu que fatores como a feminização da pobreza e o racismo estrutural atuam como barreiras concretas, especialmente quando somados à limitação visual da autora.
Segundo o magistrado, tais elementos dificultam não apenas o ingresso, mas também a permanência em atividades laborais, sobretudo aquelas que exigem esforço físico ou precisão visual.
Conceito de deficiência e impedimento de longo prazo
O juízo destacou que a legislação não exige incapacidade total para o trabalho, mas sim a existência de impedimentos de longo prazo.
Nesse sentido, a limitação visual, aliada às condições sociais da autora, foi considerada suficiente para caracterizar a deficiência nos termos legais.
A decisão também ressaltou que o conceito de deficiência deve ser compreendido de forma evolutiva, levando em conta a efetiva participação do indivíduo na sociedade em condições de igualdade.
Condições pessoais e sociais
Entre os elementos considerados na decisão, destacam-se:
- Baixo nível de escolaridade (ensino fundamental incompleto);
- Histórico profissional restrito a atividades braçais;
- Baixa renda familiar;
- Responsabilidade com filhos menores;
- Impactos da dupla jornada e da realidade social enfrentada por mulheres;
- Desigualdades raciais e barreiras de acesso ao mercado de trabalho e à saúde.
Segundo a sentença, esses fatores ampliam os efeitos da doença, tornando a limitação visual uma barreira ainda mais significativa.
Decisão
Diante do conjunto de circunstâncias, a Justiça Federal determinou que o INSS conceda o Benefício de Prestação Continuada à autora, garantindo o pagamento de um salário mínimo mensal.
Considerações finais
A decisão reforça a importância de uma análise contextualizada nos pedidos de benefícios assistenciais, especialmente quando presentes fatores estruturais que impactam a autonomia do indivíduo.
A aplicação da perspectiva de gênero e raça evidencia a necessidade de o Judiciário considerar desigualdades históricas e sociais na efetivação de direitos fundamentais.

